A COP-30 e a guerra de narrativas

A Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima — a COP30 — que será realizada em Belém do Pará, em novembro de 2025, promete ser um marco nas discussões globais sobre o enfrentamento da crise climática. No entanto, antes mesmo de começar, o evento já está imerso em uma verdadeira guerra de narrativas: discursos divergentes disputam espaço, influência e legitimidade sobre o futuro ambiental do planeta.

Um dos focos dessa disputa está na presença de lobistas do petróleo nas negociações. Organizações da sociedade civil vêm pressionando o governo brasileiro a impedir a participação desses grupos, que historicamente atuam para frear a adoção de medidas efetivas contra as mudanças climáticas. O pedido escancara um dilema: como promover avanços se os representantes dos maiores emissores de poluentes continuam influenciando as decisões?

A escolha de Belém como sede da conferência é carregada de simbolismo. A Amazônia, frequentemente apresentada como “solução para o clima”, revela também as contradições do modelo de desenvolvimento vigente: exploração de recursos naturais, exclusão de comunidades tradicionais e fragilidade de infraestrutura. Belém se prepara para receber delegações do mundo todo, enquanto tenta equilibrar expectativas globais e demandas locais.

Recentemente, uma carta aberta assinada por mais de 260 organizações e especialistas cobrou do Brasil mais transparência e a limitação da influência de interesses fósseis na COP. A pressão é grande — e legítima. Afinal, como confiar em soluções climáticas quando quem lucra com a crise está sentado à mesa?

De um lado, ativistas e ONGs defendem regras mais rígidas, a exclusão de lobistas e o fim do greenwashing. De outro, há quem veja na transição ecológica uma oportunidade de negócio, apostando em soluções de mercado como o comércio de créditos de carbono ou ações compensatórias, que muitas vezes não tocam nas causas estruturais do problema. O confronto entre essas visões é o que alimenta a guerra de narrativas.

A presença do Príncipe William, já confirmada, e de outras figuras globais engajadas em causas ambientais pode reforçar o tom de urgência e compromisso da conferência. Além disso, foi nomeado o empresário Dan Ioschpe como “Campeão de Alto Nível do Clima” — uma figura criada a partir da COP21 de Paris, responsável por articular diferentes setores em prol de compromissos mais efetivos. O papel dos “campeões climáticos” é importante, mas sua real efetividade dependerá da capacidade de dialogar com a complexidade do momento.

No fim das contas, o que está em jogo é mais do que o texto de um acordo que virá após a conferência: é a narrativa que vai prevalecer sobre o futuro do planeta.

A COP30 precisa ser mais do que uma vitrine internacional. Precisa ser um espaço de decisões corajosas. Mas, para isso, é necessário reconhecer que a disputa entre discursos não é apenas retórica — ela molda os rumos das políticas ambientais, define prioridades e silencia ou amplifica vozes. Em meio a tantos interesses, cabe à sociedade civil, à ciência e às populações tradicionais manter a vigilância e disputar esse espaço narrativo. Porque enquanto o mundo negocia, o clima já mudou — e a história será escrita por quem tiver coragem de agir.

Por Larissa Warnavin – geógrafa, mestre e doutora em Geografia, além de professora da Área de Geociências do Centro Universitário Internacional Uninter.

Henrique Branco

Formado em Geografia, professor das redes de ensino particular e pública de Parauapebas, pós-graduado em Geografia da Amazônia e Assessoria de Comunicação. Autor de artigos e colunas em diversos jornais e sites.

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